Conservação da água no bioma Cerrado
Sumário
Avaliação hidrológica multiescalar do bioma Cerrado para identificação de áreas prioritárias para a conservação da água — da dinâmica de infiltração nas encostas à recarga de aquíferos regionais — traduzindo os resultados em um framework de planejamento territorial para orientar políticas públicas.

Contexto
O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e a nascente de três dos maiores sistemas fluviais da América do Sul — São Francisco, Paraná e Araguaia. Sua hidrologia é governada por um regime sazonal marcado: uma estação chuvosa concentrada seguida por um longo período seco, durante o qual os rios dependem quase inteiramente do escoamento de base para manter suas vazões. Esse mecanismo está diretamente condicionado à fração da chuva que efetivamente infiltra no solo em vez de escoar superficialmente. O uso do solo é a válvula de controle do sistema.

O Instituto Cerrados me convidou justamente porque este não era um estudo ecológico típico — exigia um framework hidrológico fundamentado nos controles topográficos da infiltração, que é o núcleo da minha pesquisa de doutorado sobre TOPMODEL. Meu papel foi coordenar a estrutura conceitual do projeto, os relatórios técnicos e a integração do pipeline de dados geoespaciais, em colaboração com o prof. Guilherme Marques e o hidrólogo Rafael Barbedo, garantindo que os resultados fossem ao mesmo tempo cientificamente sólidos e aplicáveis à política pública.
Abordagem
O estudo foi estruturado em três partes. A primeira estabeleceu a teoria hidrológica específica ao Cerrado: como a infiltração opera nas encostas e platôs, como a conectividade hidrológica acelera ou amorte o escoamento, e por que o Código Florestal — embora protetivo das zonas ripárias — deixa de reconhecer as áreas de encosta onde a infiltração de fato ocorre. A base conceitual apoiou-se na métrica HAND (Height Above Nearest Drainage) como proxy da suscetibilidade à saturação e do potencial de infiltração na microescala.

A segunda parte testou essas hipóteses empiricamente a partir de oito bacias de referência no Distrito Federal distribuídas em um gradiente de conservação — de Cerrado praticamente intacto a ambientes totalmente urbanizados — sob o mesmo regime de precipitação. A análise evento a evento da bacia do Bananal identificou um limiar topográfico de HAND em torno de 11,5 m como separador prático entre zonas suscetíveis à saturação e áreas com genuíno potencial de infiltração.
A terceira parte escalou a análise para o bioma inteiro. O sistema de classificação APCAC (Áreas Prioritárias para Conservação da Água) hierarquizou sub-bacias em até 16 classes a partir de três dimensões: importância hidrológica natural, grau de conservação atual e risco de perda de serviços ecossistêmicos. A análise foi conduzida na malha detalhada das Bacias Hidrográficas Ottocodificadas (BHO 5K) para preservar os sinais de escala local que malhas mais grosseiras suprimem sistematicamente.
Resultados
Bacias preservadas produziram duas a quatro vezes mais vazão durante a estação seca do que suas contrapartes degradadas, mesmo sob precipitação idêntica — um argumento empírico direto para a vegetação nativa como infraestrutura hídrica. O limiar HAND forneceu um critério reprodutível para mapear zonas prioritárias de infiltração na escala da propriedade e da bacia.

Na escala do bioma, a geologia emergiu como o principal fator de macroescala estruturando a importância hidrológica, com os aquíferos Urucuia e Parecis ocupando as classes de maior capacidade de infiltração e armazenamento. Duas fronteiras de risco distintas foram identificadas: a região do Matopiba, no nordeste, onde grandes áreas naturais enfrentam forte pressão de conversão, e o Cerrado Sudeste, onde paisagens degradadas combinam declividade acentuada, solos erodíveis e baixa cobertura vegetal em um risco de erosão sinérgico.
Os mapas APCAC foram concebidos para ser incorporados diretamente aos instrumentos existentes — do Zoneamento Ecológico-Econômico e outorgas de uso da água a programas de Pagamento por Serviços Ambientais como o Produtor de Água da ANA.

Em abril de 2026, a metodologia foi validada em um workshop realizado na sede do Ministério em Brasília, reunindo especialistas da ANA, ICMBio, IBAMA e universidades federais. A discussão girou em torno de se a lógica de classificação era robusta o suficiente para informar instrumentos reais de política — e o consenso foi que era.
Recursos
| Produto | Descrição | |
|---|---|---|
| 📄 | Relatório Técnico | Relatório completo (PDF) e código-fonte LaTeX — Possantti et al., 2025, Zenodo |
| 🗄️ | Base de Dados Geoespaciais | Rasters de entrada, camadas intermediárias de índices, mapas finais de prioridade e bacias classificadas — Zenodo |
| 💻 | Código de Processamento | Workflow Python para QGIS com a classificação APCAC — GitHub |
| 📖 | Documentação | Documentação do método e guia de uso — GitHub Pages |
Informações do Projeto
| Título oficial do projeto: | Áreas prioritárias para ações de conservação de água no Bioma Cerrado: uma avaliação em múltiplas escalas |
| Cliente final: | MMA - Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima |
| Intermediário: | Instituto Cerrados |
| Meu papel: | Hidrólogo Consultor |
| Ferramentas aplicadas: | QGIS, Python, Inkscape, Blender, LaTeX |