Foto de água
Sanga no Morro da Borússia (a), Osório, Primavera de 2024 © Iporã Possantti

Como argumentar sobre o Guaíba

Sumário

No post anterior eu avaliei como não argumentar sobre o Guaíba, no contexto da discussão se esse corpo hídrico é um rio ou um lago. Dando continuidade, irei avançar agora sobre princípios básicos de uma discussão racional sobre o tema, e porque eu entendo que o Guaíba é um lago.

Leia também: Como não argumentar sobre o Guaíba

Deduções, gaúchos e polêmicas

As falácias argumentativas listadas no post anterior estão erradas porque elas violam a lógica de inferência dedutiva.

Uma dedução possui a seguinte estrutura: (1) uma premissa condicional é pré-estabelecida; (2) surge um enunciado antecedente, e; (3) nasce uma inferência consequente. Por exemplo:

  1. premissa: é verdade que todos os gaúchos gostam de uma polêmica;
  2. antecedente: é verdade que Joana é gaúcha;
  3. consequente: então é verdade que Joana gosta de uma polêmica.

A sentença consequente é implicada pela premissa e pelo antecedente. No caso das falácias, não está implicado, por exemplo, que o Guaíba é um rio ou um lago só porque a população prefere de um jeito, ou porque a lei protege mais um ou outro.

Uma Fata Morgana no Lago Guaíba. Ipanema, Inverno de 2019 © Iporã Possantti

Hipóteses falsas

O filósofo Karl Popper nos ensina que a dedução é muito útil na Ciência, pois a premissa consiste em uma hipótese e o antecedente consiste em uma evidência empírica refutadora. Por exemplo:

  1. hipótese: todos os gaúchos gostam de polêmicas;
  2. evidência refutadora: Mateus é gaúcho, mas não gosta de polêmicas;
  3. conclusão: então é falsa a hipótese de que todos os gaúchos gostam polêmicas.

A confirmação de uma hipótese é bem mais complicada, pois uma evidência empírica confirmativa específica não garante a verdade de uma hipótese mais abrangente:

  1. hipótese abrangente: todos os gaúchos gostam de polêmicas;
  2. evidência confirmativa específica: José é gaúcho e gosta polêmicas;
  3. conclusão: então a hipótese continua em aberto, pois ela se refere a todos os gaúchos, não apenas José.

Para confirmar a hipótese, todos os gaúchos precisariam ser entrevistados, enquanto que apenas um gaúcho que não gosta de polêmicas é suficiente para demonstrar que a hipótese é falsa.

Ingazeiros e o Lago Guaíba. Menino Deus, Outono de 2025 © Iporã Possantti

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

A questão se o Guaíba é um rio ou um lago é obviamente um problema geofísico. Mas, acima de tudo, é um problema de classificação.

Esse tipo de problema demanda que seja instanciada uma coleção de objetos substantivos a priori, definidos de maneira exaustiva e mutuamente excludente. Ou seja: gatos não podem ser cachorros ao mesmo tempo.

Da mesma forma, rios não podem ser lagos. Lagos não podem ser estuários. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Gato ou cachorro? Se é um, não pode ser outro https://www.atchoumthecat.com/

A classificação é uma forma de encapsular simbolicamente a complexidade da realidade. Apesar de simplificar as coisas, esse é, na verdade, o grande objetivo da linguagem: abrir mão dos detalhes para ganhar capacidade comunicativa.

Se eu precisar toda a vez explicar nos mínimos detalhes as sensações bizarras que assolam o meu estômago, nunca irei almoçar. É muito mais prático falar que “tenho fome”.

O universo das equações

Alguns podem alegar que a parte “geo” de “geofísica” é irrelevante, e só importa parte “física“. Os colegas da engenharia preferem essa abordagem, enquanto que os cientistas da natureza insistem em trabalhar com conceitos e classes qualitativas.

Pelo olhar da física, é necessário apenas instanciar um universo com algumas coisas bem simples, como os conceitos de tempo, espaço e massa; as três leis de Newton; e talvez algumas constantes, como a aceleração da gravidade e a viscosidade do fluido. O resultado disso são as equações de Navier-Stokes:

$$ \rho \left( \frac{\partial \mathbf{u}}{\partial t} + \mathbf{u} \cdot \nabla \mathbf{u} \right) = - \nabla p + \mu \nabla^2 \mathbf{u} + \mathbf{f} $$

em que $\rho$ é a densidade do fluido (kg/m³), $\mathbf{u}$ é o vetor velocidade (m/s), $t$ é o tempo (s), $p$ é a pressão (Pa), $\mu$ é a viscosidade dinâmica (Pa·s), $\nabla$ é o operador gradiente, e $\mathbf{f}$ representa forças externas (N/m³). Essas equações podem ser simplificadas em diferentes situações, como para o escoamento de águas rasas.

As fórmulas da mecânica de fluidos não fazem a mínima distinção entre rio, lago, estuário, etc. Mas, ao resolver elas, é possível determinar a velocidade da água no tempo e no espaço, o que é uma informação muito mais útil para questões teóricas e práticas.

Réguas de nível no Lago Guaíba. Ipanema, Inverno de 2019 © Iporã Possantti

Um algoritmo

Mas se somos obrigados a classificar o Guaíba para facilitar a nossa comunicação, então é necessário seguir um roteiro bem claro e aplicar a lógica dedutiva sobre um conjunto de classes a partir das evidências empíricas. Os passos podem ser formulados como um algoritmo:

  1. escolha um sistema de classes;
  2. colete evidências empíricas sobre o objeto;
  3. para cada classe, teste as evidências contra a definição da classe;
  4. se as evidências são contrárias à definição da classe, rejeite essa classe.

Por que o Guaíba não é um rio

Com esse protocolo, eu vejo que o Guaíba não pode ser um rio porque a classe de “rio” não passa no teste em nenhum sistema de classificação razoável. Eu explico.

Meandros, remansos e corredeiras

Por exemplo, se adotarmos a classificação de rios proposta por David Rosgen (1994), um dos parâmetros necessários para classificar rios é a declividade do seu canal.

Tipologias de rios, com base na declividade, seção e vista de plano Rosgen (1994)

Nessa linha, podemos definir um rio da seguinte maneira:

Um rio é um canal drenável.

Assim sendo, os rios criam sistemas fluviais de erosão, transporte e deposição. Em trechos mais declivosos, formam remansos e corredeiras. Em áreas mais planas, criam-se as barras (depósitos) e barrancas (erosão). Meandros avulcionam em planícies sedimentares, o que resulta em diques naturais e lagoas de ferraduras (meandros ambandonados).

Além disso, os rios são abastecidos pelas chuvas. Os rios são perenes à medida que os solos nas encostas conseguem armazenar a água da chuva e liberar ela lentamente durante o tempo seco. Quando não chove por muitos meses, o nível dos rios baixa até a água simplesmente desaparecer. Ou seja, os rios podem secar.

Estrutura de um sistema fluvial Grotzinger et al.(2014)

Porém, no caso do Guaíba, as evidências de batimetria divulgadas por Nicolodi e colegas (2011) apontam que não existe declividade efetiva, pois o seu fundo está abaixo do nível do mar. Em alguns locais, o fundo chega a estar até mesmo 10 metros de profundidade abaixo do nível do Oceano.

Portanto, se nunca mais chovesse, o Guaíba não iria secar. Nessa situação hipotética, o nível médio iria baixar em torno de um metro da média atual, fazendo alguns poucos baixios emergirem nas suas margens.

Batimetria normal (mapa de profundidade) do Lago Guaíba. modificado de Nicolodi et al. (2011)
Estimativa de profundidade se o Lago Guaíba “secar” 1 metro. © Iporã Possantti

Durante uma eventual estiagem extrema, portanto, corremos o risco de intrusão da água do mar no Guaíba, o que afetaria a captação de água de milhões de pessoas. Esse processo de intrusão salina ocorre com frequência na Laguna dos Patos, mas normalmente não chega a atingir o Guaíba. A eventual abertura de mais de canais no Estuário, ou a subida do nível do mar, pode mudar essa dinâmica (para pior).

Tudo é rio

Muitos colegas defendem a classificação de rio ao evocar que há uma substancial corrente de fluxo que atravessa o Guaíba de uma ponta a outra:

“Há uma corrente de fluxo no canal do Guaíba. Portanto, o Guaíba é um rio”

Uma corrente de fluxo de água mais escura (com menos lama) adentrando o Guaíba, ainda tomado de águas turvas. Nota-se uma zona relativamente estagnada no Saco Santa Cruz, próximo de Eldorado do Sul. Março de 2025 modificado de INPE

O apelo ao fluxo é um argumento legítimo, pois é geofísico. Porém, na minha opinião, esse argumento incorre num engano de categorização, pois confunde a definição de corrente de fluxo com a definição de rio. Ou seja, se estabelece que:

“Uma corrente de fluxo é um rio”

É claro que um rio é uma corrente de fluxo. Mas nem toda corrente de fluxo é um rio.

Ao inverter a ordem, criam-se consequências conceituais um tanto esquisitas. Por exemplo, para sermos consistentes, seríamos forçados a estabelecer que o Estuário da Laguna dos Patos é um rio, pois há uma grande corrente de fluxo d’água nessa região.

Correntes de fluxo no Estuário da Laguna dos Patos (RS), Maio de 2024 modificado de INPE

No Oceano existem diversas correntes de fluxo, que então seriam rios. Até mesmo as correntes de turbidez seriam rios. Da mesma forma, as correntes de fluxo que adentram nos lagos de represas artificias, por definição, também seriam rios.

Corrente de fluxo na foz do Rio Pardo no lago da represa Porto Primavera (SP), Outono de 2025 modificado de ESA

O Lago Guaíba

O Guaíba também não poderia ser um estuário ou uma laguna, pois essas definições envolvem a constante presença da salinidade do Oceano, fato que não ocorre nas condições atuais.

Somos um tanto forçados, assim, a adotar a classe de lago

Essa classe é a que nos resta. E é assim que funciona o processo dedutivo na Ciência: as hipóteses sobrevivem aos testes das evidências empíricas. Abaixo seguem algumas dessas evidências, divulgadas por pesquisadores do Centro de Estudos Costeiros e Oceânicos (CECO/IGEO).

O fundo do Guaíba é dominado por silte

Estudos conduzidos com o DMAE no final dos anos 90 trouxeram amplas evidências sobre os sedimentos de fundo do Guaíba. A conclusão é que o teor de areia no seu centro, justamente por onde passa a famosa corrente de fluxo, é de de 0 a 10%.

Sedimentos do fundo do Lago Guaíba Sechi et al. (2000)

Nessa área, a maior parte dos sedimentos é de silte, uma fração lamosa e fina de sedimentos, que precisa de águas tranquilas para se depositar. Isso implica que, mesmo com a corrente de fluxo atravessando o lago, predominam condições tranquilas para a deposição abaixo da superfície.

O teor de areia aumenta no entorno da desembocadua do Delta do Jacuí e em ambas as margens do lago, onde pode chegar a 100%.

Praia arenosa no Lago Guaíba. Ipanema, Inverno de 2019 © Iporã Possantti

A erosão nas margens ocorre pela ação das ondas, geradas pelos ventos

Um estudo de modelagem hidrodinâmica, conduzido por Nicolodi e colegas (2013), avaliou que o teor de areia nas margens se explica pela ação das ondas, que são geradas pelos ventos. As ondas, assim, causam a ressuspensão das partículas finas de silte, deixando ali apenas a fração mais grosseira de areia.

Mapa do potencial de ressuspensão de silte e areia fina pela ação de ondas no Lago Guaíba. Nicolodi et al. (2013)

Esse estudo de modelagem gerou um mapa de ambientes sedimentares do Lago Guaíba. Os autores sugerem que no centro do Lago, mesmo com a corrente de fluxo, é uma região predominantemente deposicional.

Mapa dos ambientes sedimentares do Lago Guaíba Nicolodi et al. (2013)

Há uma grande corrente de fluxo… mas os ventos podem inverter a sua direção

Vazão negativa

Uma observação interessante, publicada em 2020 por Scottá e colegas, é a inversão da corrente de fluxo de água na desembocadura do Delta do Jacuí (canal em frente à Usina do Gasômetro).

Eles mediram a vazão com sensores ao longo da seção do canal, mostrando que geralmente o fluxo ali é intenso e positivo, trazendo água nova do Delta para dentro do Lago. Mas quando o vento sul é suficientemente forte, a corrente se inverte, e há um fluxo negativo de água, que escoa do Lago para dentro do Delta.

Fluxo negativo medido na Ponta da Cadeia (Gasômetro) Scottá et al. (2020)

Esse fenômeno é de longe conhecido pelos operadores da ETA da Ilha da Pintada, que sabem muito bem, na prática, dessa variabilidade de fluxo associada ao vento sul. No caso, não é preciso medir o fluxo com sensores na água, pois a própria qualidade da água muda drasticamente quando ocorre uma inversão, o que obriga os operadores a mudar os seus processos de depuração para o tratamento.

Essas evidências corroboram que o Guaíba é um lago e ajudam a refutar que o Guaíba é um rio. Outra eventual definição para o Guaíba precisaria ser simples o suficiente e também explicar todas essas observações. A classificação de lago dá conta do recado.


Referências

David L. Rosgen, A classification of natural rivers, CATENA, Volume 22, Issue 3, 1994, Pages 169-199, ISSN 0341-8162, https://doi.org/10.1016/0341-8162(94)90001-9.

Bachi, Flávio, Barboza-Pinzon, Eduardo, and Toldo, Elirio (2000). Estudo da Sedimentação do Guaíba. Ecos, 17, 32-35. https://doi.org/https://www.researchgate.net/publication/305827830_Estudo_da_Sedimentacao_do_Guaiba

Nicolodi, Joao L., Toldo, Elirio, and Farina, Leandro (2011). Wave dynamics and resuspension in Lake Guaíba (Brazil) with implications on points of water abstraction for human supply. Journal of Coastal Research, SI 64, 1550-1554. https://doi.org/https://www.jstor.org/stable/26482435

Nicolodi, Joao Luiz, Toldo, Elirio E., and Farina, Leandro (2013). Dynamic and resuspension by waves and sedimentation pattern definition in low energy environments: guaíba lake (Brazil). Brazilian Journal of Oceanography, 61, 55–64. https://doi.org/http://dx.doi.org/10.1590/S1679-87592013000100006

John Grotzinger, Thomas H. Jordan (2014). Understanding Earth 7th Edition. Macmillan Learning UK.

Scotta, Fernando Comerlato, Andrade, Mauro Michelena, Weschenfelder, Jair, Toldo, Elirio Ernestino, and Nunes, Jose Carlos Rodrigues (2020). Descarga líquida e sólida em suspensão no Rio Guaíba, RS, Brasil. Pesquisas em Geociências, 47, 19p. https://doi.org/10.22456/1807-9806.109983


Outros recursos

Manifestação em audiência pública no dia 30 de Maio:

Possantti, I. (2025, May 31). Eu acho que o Guaíba não é um rio. Lago é uma boa classificação. E só mudarei de ideia com um bom argumento geofísico. (manifestação em audiência pública). Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.15565330